Breve história da Confissão de Fé de Westminster

A partir da separação da Igreja da Inglaterra da Igreja Católica Romana em 1534, tivemos nas ilhas britânicas uma reforma diferente em relação ao que ocorrera a partir de 1517 na Europa Continental. Enquanto o luteranismo se separou de Roma firmando-se como um movimento independente e ao mesmo tempo que o modelo suíço com Calvino ganhava força, a Igreja Anglicana, sob a liderança de Henrique VIII, manteve basicamente a forma litúrgica e de governo eclesiástico semelhante ao padrão romano — uma igreja que abraçava a doutrina reformada mantendo a roupagem católica. Os Trinta e Nove Artigos da Religião¹ sancionados no reinado de Elizabete I (1563) formaram um amalgama de um luteranismo (Confissão luterana de Augsburgo de 1530) e um calvinismo moderado², o que é chamado de “equilíbrio elizabetano”.³  Entretanto, ainda persistiu a forma episcopal de governo.

Após o longevo reinado de Elizabete I (1559-1603), seu sobrinho escocês James I (1566-1625)⁴, filho de Maria Stuart — a Maria dos Escoceses — assumiu o trono unificando sob uma mesma coroa a Escócia e a Inglaterra, dois reinos historicamente rivais entre si.  Embora James I fosse escocês, ele era contra os ideias presbiterianos de um governo federado. Para o novo rei, o sistema presbiteriano minava a sua própria autoridade real, numa época em que o absolutismo começava a florescer. Aliás, antes mesmo de assumir a coroa inglesa, James I já havia tomado uma série de diretrizes de modo a transformar a forma de governo da igreja escocesa para um sistema episcopal centralizado. Além da motivação religiosa, o próprio fato de James I ser escocês trouxe desconfiança, principalmente por parte dos protestantes ingleses que tiveram grandes prejuízos religiosos e econômicos com o desastre da participação inglesa na Guerra dos Trina Anos (1618-1648).⁵

O sucessor de James I, Carlos I (1600-1649), também manteve a animosidade em relação ao sistema presbiteriano escocês. Ele não somente manteve as restrições de seu pai e a decisão de 1625 de tornar a igreja escocesa em um sistema episcopal, como alçou ao posto de primaz da Igreja Anglicana o Arcebispo da Cantuária William Laud (1573-1645), que era um feroz adversário do presbiterianismo, defensor da forma episcopal de governo. Além disso, Laud rejeitava importantes doutrinas da Reforma do séc. XVI, em uma clara tentativa de levar a igreja da Inglaterra de volta à comunhão com a Sé Romana.⁶ Mais tarde, em 1640, ele seria preso e executado 5 anos depois.

Aliado a essa crise religiosa, Carlos I foi o responsável pelo conflito civil (1642–1649) que colocou em linhas opostas a monarquia e o Parlamento. De um lado, o Parlamento anelava por um sistema político mais descentralizado; por outro, Carlos I rumava na direção oposta, tentando consolidar o seu poder. Dentro desse conflito de forças é que o Parlamento buscou apoio dos escoceses que já estavam ressentidos de Carlos I por causa de toda a mudança promovida na Igreja da Escócia, ou seja, do presbiterianismo escocês. O resultado dessa tesão foi a invasão das tropas escocesas em solo inglês e a presença mais significativa dos representantes escoceses, chamados de puritanos⁷, dentro do Parlamento por meio da Liga Solene e Aliança.⁸ 

Em troca do seu apoio no Parlamento contra o monarca, os escoceses colocaram na pauta um plano de revisão geral da Igreja da Inglaterra: seria a reforma da reforma. Assim, com a presença significativa dos puritanos na casa dos comuns, foi acordado que uma assembleia seria chamada, sob a chancela do Parlamento, para efetuar tais mudanças que atingiriam o culto, a doutrina, o governo e a disciplina da Igreja Anglicana. De acordo com Chad Van Dixhoorn, “deixados com o gosto amargo e prolongado da interferência inglesa em sua igreja, eles [os puritanos] tinham se convencido de que somente uma grande reforma na igreja do Sul poderia salvaguardar o cerne dos ensinos de sua igreja, a do Norte”.⁹

Assembleia de Westminster

Assembleia de Westminster

Após algum tempo, em 1643, a assembleia foi convocada com a participação de 121 clérigos e 30 leigos do próprio parlamento. O documento aprovado depois de 5 anos para ser normativo sobre toda a Igreja da Inglaterra (Padrões de Westminster: Confissão de Fé, Catecismo Maior e Menor) assim o foi até 1648, quando o Independente lord protector Oliver Cromwell (1599-1658) executou o rei Charles I, mantendo-se longe de qualquer ingerência, seja da ala episcopal ou presbiteriana. Nesse contexto, as diretrizes de Westminster foram canceladas sobre a Inglaterra, permanecendo válidas apenas na Escócia. Entretanto na Escócia, a Confissão de Fé de Westminster, como veio a ser chamado, ganhou um lugar tão importante que substituiu a liturgia e o credo knoxiano.

Carl Trueman define a intensão basilar da Assembleia de Westminster da seguinte forma: “[a]ssim, quando os teólogos ingleses receberam permissão do parlamento para revisar o anglicanismo em 1643, isso ocorreu sob o pano de fundo de quase um século de luta pela identidade anglicana e de evidências acumuladas da inadequação dos Artigos de religião originais para proteger o legado da Reforma”. [10] Os padrões de Westminster, embora tenham sido relegados ao plano secundário dentro do Anglicanismo, tornaram-se símbolo de fé central das tradições presbiterianas na Escócia, EUA, Brasil, Coreia e etc.


Notas

¹ Os Trinta e Nove Artigos são a confissão de fé basilar do Anglicanismo. Texto integral disponível em http://www.monergismo.com/textos/credos/39artigos.htm [acessado em 19.jan.2019].

² Lames S. McEwen, “How the Confession came do be written” in The Westminster Confession in the Church Today, ed. Alasdair I.C. Heron (Edinburgh: The Saint Andrews’s Press, 1982), pg. 7.

³  Justo L. Gonzalez, A era dos dogmas e das dúvidas. Uma história ilustrada do cristianismo Vl. 8 (São Paulo: Vida Nova, 2005), pg. 53.

⁴ James VI da Escócia.

⁵ Justo Gonzalez, A era dos dogmas, pg. 51.

⁶ Muitos puritanos o acusavam de ser arminiano.

⁷ Os puritanos não eram um grupo coeso na época. Foram assim chamados por causa da defesa do regresso à religião pura e bíblica.

⁸ Texto integral disponível em https://drive.google.com/file/d/0ByMRQ3bAxEvTRURUVDRRRUdmUUU/view [acessado em 19.jan.2019].]

⁹ Chad Van Dixhoorn, Guia de Estudos da Confissão de Fé de Westminster (São Paulo: Cultura Cristã, 2017), pg. 17.

10 Carl Treman, O imperativo confessional, pg. 170-1.