Salvação somente pela Lealdade

Bates, Matthew W. Salvation By Allegiance Alone: Rethinking Faith, Works, and the Gospel of Jesus the King. Grand Rapids: Baker, 2017. pp. 234. | *Obra em língua inglesa, ainda não traduzido para o português.

Não há nada realmente novo na tese principal deste livro. A crença de que Jesus é rei e governa todo o cosmo, e salva quem se junta a ele nesse governo que estabelece uma nova criação é algo que a maioria dos cristãos ouviria sem nenhum sinal de surpresa. O que é bastante inovador é como Bates, de forma clara e objetiva, desenvolve elementos cruciais do evangelho num diálogo com discussões teológicas típicas, especialmente a definição do evangelho e o papel das obras para a salvação. Ele faz isso de forma tão lógica e com tamanha facilidade que parece surpreendente que tanto debate tenha ocorrido sobre essas questões na história da igreja

Logo de início Bates apresenta as propostas principais de seu livro. O argumento básico provém meramente do significado da palavra grega pistis, que denota confiabilidade, fidelidade e lealdade. Ele nega a afirmação de causa-e-efeito de que “fé genuína inevitavelmente produz boas obras.” E ele conclui com diversas histórias em que Jesus pressupõe que a salvação é o resultado de ações (“entrar pela porta estreita,” “tomar sua cruz,” “deixar casas,” e “dar generosamente aos pobres”). O resumo de seu argumento é apresentado da seguinte maneira: o clímax do evangelho é a entronização de Jesus; o termo pistis foi deturpado; salvação é sobre participação corporal na nova criação; salvação por lealdade é capaz de reconciliar as típicas divisões, tais como fé e obras.

O primeiro capítulo (A Fé Não É) é uma lista de muitas características tipicamente associadas à fé, mas que não fazem parte da definição de pistis no Novo Testamento. A lista inclui negativas como “não é um salto no escuro”, “nem o oposto de obras” e “não é uma atitude otimista”. Mas eu quero enfatizar o último tópico da lista: “não pode ser reduzida a uma concordância intelectual”. Muitos evangélicos, por todo o espectro teológico, parecem crer que a fé cristã e a salvação dizem respeito a uma concordância do indivíduo com relação a algumas proposições teológicas. Tipicamente, como demonstra Bates, trata-se em aceitar mentalmente que Jesus morreu por seus pecados, e pronto!

Quase numa sequência desse último ponto, Bates começa o capítulo 2 (Lealdade e o Evangelho Completo) mostrando como a ideia de que a “fé” é uma aceitação intelectual de que Jesus morreu por seus pecados é totalmente auto-centrada: “Eu tenho um problema (o pecado) e estou a caminho da perdição, mas Jesus morreu por meus pecados, então agora posso mudar de caminho para ir para o céu”. Então Bates mostra que o evangelho não é sobre o meu problema, mas sim sobre Jesus e sua caminhada para se tornar o rei de todo os cosmo. Nesse drama cósmico, a encarnação é o primeiro movimento e a entronização é o segundo. Lidando com alguns textos paulinos como Romanos 1.1-5, 16-17 e Colossenses 2.13-15, Bates mostra que o perdão de pecados é somente uma pequena parte dessa história cósmica, e só faz sentido como um meio de “efetuar a salvação” se estiver inserido no contexto maior sobre a lealdade a Jesus o rei.

A primeira parte do capítulo 3 (Jesus Proclama o Evangelho) reforça a ideia de que o evangelho é sobre o reinado de Jesus, argumentando que Jesus pregou e efetuou o evangelho em seu ministério. Portanto, Bates diz, Jesus anuncia e inaugura o reinado de Deus. Mais uma vez, o evangelho não é sobre eu e você, e nossa necessidade de perdão, mas é sobre Jesus e sua autoridade celestial. Uma boa parte do capítulo é dedicada em delinear o que Bates define como o evangelho de acordo com a pregação apostólica. Ele lista 8 pontos sobre Jesus o rei: 1. preexistiu com o Pai; 2. tomou a forma humana, cumprindo a promessa de Deus a Davi; 3. morreu pelos pecados de acordo com as Escrituras; 4. foi sepultado; 5. foi ressuscitado no terceiro dia de acordo com as Escrituras; 6. apareceu a muitos; 7. está sentado à direita de Deus como Senhor; e 8. virá novamente como juiz. A lista é útil para mostrar que colocar a “fé” ou “perdão” ou “expiação” no centro do evangelho é um grande erro. No entanto, acho que a forma como Bates utiliza essa lista é um pouco problemática para seu argumento no livro. Como ficará claro em minha análise do capítulo final, Bates usa essa lista como um tipo de sistema ao qual cristãos devem se comprometer.

Antes de seguir com o próximo capítulo, quero fazer uma importante pausa aqui. Nesse capítulo, Bates diz algo extremamente útil: “Nossa justificação é o resultado do evangelho quando somos unidos, por meio de pistis, a Jesus o rei que efetua expiação” (p. 54). Bates cita teólogos evangélicos como R. C. Sproul, John Piper e Thomas Schreiner (um pastor dogmático, um pastor exegeta, e um estudioso do Novo Testamento) como exemplos de quem confunde os resultados ou os benefícios do evangelho, ou seja, perdão de pecados, expiação e justificação, com o próprio evangelho. É interessante que a tradição evangélica representada por esses homens tende a acusar outras tradições cristãs de distorcerem o evangelho. Eles são bem conhecidos por carregarem o lema de que são os guardiões do verdadeiro evangelho. No centro desse lema está algo como Soli Deo Gloria, ou glória somente a Deus. Ironicamente, o que eles promovem como evangelho é uma teologia auto-centrada, pois bem no meio do evangelho está o indivíduo pecador em necessidade de perdão. Uma forma utilizada por esses teólogos evangélicos para evitar o auto-centrismo é dizer que o evangelho é sobre Deus, e que ele nos reconciliou com ele para sua própria glória. Isso não é suficiente, pois no centro de tudo aquilo que Deus faz está a expiação de pecados e a justificação de indivíduos. Uma tradição evangélica que costuma ser bastante criticada por esses “guardiões do verdadeiro evangelho” é aquela que se importa com questões de justiça e misericórdia para os pobres. Muito curiosamente, mesmo na versão mais extrema dessa tradição, refletida no evangelho social, ainda que haja uma distorção do evangelho por centralizar um resulto ou benefício do evangelho, pelo menos não é um distorção auto-centrada. Fim da pausa.

Capítulo 4 (Fé como Lealdade) contém o argumento mais detalhado de Bates sobre seu conceito de lealdade como a melhor opção para entender pistis. Ele começa listando obras da antiguidade, como Macabeus e as obras de Josefo, em que pistis é claramente usada num contexto político que somente pode significar lealdade à autoridade. Quando Bates trata da literatura paulina, ele faz algumas comparações com o uso de pistis tendo Deus como sujeito (por exemplo, Rm 3.3), em que o significado somente pode ser fidelidade ou lealdade. Muito mais importante, porém, é quando Bates aborda o que deveria ser o ponto inicial da discussão, que é a expressão paulina “Jesus é o Senhor”, e a caracterização mais básica da identidade de Jesus como o Cristo. Então, quando Paulo diz claramente o que é necessário para ser salvo, ele não diz que precisamos confessar que Jesus morreu por nossos pecados; ele diz que precisamos confessar que Jesus é Senhor e crer que Deus o ressuscitou dos mortos. A partir desse ponto de vista, expressões fundamentais para entender a teologia paulina, que são completamente mal compreendidas por protestantes de forma geral e evangélicos particularmente, se tornam claras. Bates cita “a obediência da fé” (Rm 1.3; 16.25-26) e “a lei de Cristo” (1Co 9.21; Gl 6.2), como expressões sobre lealdade que se encaixam perfeitamente na teologia paulina de pistis, e fazem muito sentido com a forte exortação à igreja primitiva de mostrar lealdade a Jesus em vez de a qualquer autoridade, especialmente o imperador. Para concluir essa discussão, Bates argumenta que a fé de Abraão, como abordada por Paulo em Romanos 4.19-21, é sobre uma confiança constante, lealdade, que não tem como objeto uma promessa qualquer de Deus, mas sim a promessa específica sobre a chegada de um descendente que seria rei. Uma parte importante desse capítulo é que Bates não elimina o papel da concordância mental em sua noção de lealdade. Ele define lealdade como o uso de concordância mental, fidelidade professada, e lealdade encarnada (Bates usa outras expressões para esse último conceito, como “lealdade ativa”, “fidelidade ativa” e “fidelidade encarnada”, que são formas muito boas de definir o comportamento cristão). Portanto a concordância intelectual a certos fatos sobre a história de Jesus é necessária, mas não é suficiente.

Por mais que toda essa discussão dependa muito da definição de salvação, Bates posterga essa discussão e trabalha com algumas perguntas e respostas no capítulo 5 (Perguntas sobre Lealdade Somente) em que esclarece a relação entre “fé” e “obras”. Em minha opinião, Bates deveria ter estruturado o capítulo como os outros, sem a necessidade desse esquema de perguntas e respostas. Os pontos principais são a explicação da salvação como dádiva, o fim da noção simplista de que as obras são evidências necessárias da salvação, a definição de que Paulo é contra “obras da lei” e finalmente a demonstração de que obras são necessárias  para a noção de lealdade. Diferentemente do que é dito por evangélicos ortodoxos, salvação pela graça (charis) não significa algo totalmente “gratuito”. É, sim, o resultado da iniciativa divina sem base em nossos méritos, mas certamente estabelece uma relação de reciprocidade que espera algo em troca: obediência. Portanto, boas obras são parte dessa dinâmica de reciprocidade, se encaixando no molde de lealdade, de pistis, e fazem parte de nosso julgamento e nossa salvação final (cf. Rm 2.5-8). Bates, então, acaba completamente com a resposta fácil de evangélicos ortodoxos que explicam as boas obras não como a base de nossa salvação, mas somente como uma evidência de nossa salvação. Quando a questão é o forte antagonismo de Paulo contra obras, não se trata de boas obras, mas de “obras da lei”.  Bates explica que Paulo “se opõe… a obras que fazem parte de um sistema de salvação baseado em raça, que exige performance, e que é orientado por regras, pois neste caso não há o reconhecimento da insuficiência desses critérios diante da vinda do Cristo” (p. 115). O problema aqui é eliminar a dádiva de Cristo da equação, o que somente pode ser acessado pela lealdade a Jesus o rei. Assim, qualquer obra que esteja alinhada à nossa lealdade a Jesus é parte de nossa “fé” e “salvação”, enquanto qualquer obra que faz parte de um sistema baseado em méritos fica excluída de nossa lealdade a Jesus. Como Bates afirma, “a verdadeira divisão entre ‘fé’ e ‘obras’ em Paulo é mais bem formulada como uma divisão entre obras que são feitas como lealdade a Jesus o rei contra as obras que são feitas à parte da nova criação em Cristo” (p. 121). Eu vejo aqui uma boa possibilidade de reconciliação entre a visão de Paulo e Tiago sobre fé e obras.

Depois desses esclarecimentos, Bates oferece sua visão do que seja salvação no capítulo 6 (Ressurreição na Nova Criação) e o significado de ser salvo no capítulo 7 (Restaurando o Ídolo de Deus). Infelizmente, se o leitor não estiver atento, o propósito desses dois capítulos se perde. Bates não estrutura os capítulos de forma que esse propósito de definir a salvação e ser salvo fique muito claro. Com foco na escatologia do Novo Testamento, Bates diz que a salvação é, no fim, a reforma da presente ordem cósmica como um ambiente perfeito para que Deus e humanidade vivam juntos de tal forma que todo o cosmo seja beneficiado e a vida abunde. A partir de uma análise muito mais detalhada da narrativa da criação em Gênesis 1, Bates usa a identidade da humanidade como imagem de Deus para definir o que significa ser salvo no capítulo 7. Os dois elementos importantes aqui são que ser imagem de Deus significa reinar sobre a criação como representação de Deus, portanto de uma forma que toda a criação se beneficie mutuamente, e que essa imagem é mais bem entendida como um ídolo. Ser um ídolo de Deus significa mediar sua presença para outros seres humanos e para a criação por meio dos benefícios que promovem a vida, que fluem do reinado bem ordenado de Deus. Ao mesmo tempo, uma vez que o outro também é uma imagem de Deus, meu serviço a outro ser humano significa servir ou adorar a Deus. Bates, então conclui o capítulo mostrando que Jesus não é somente a imagem perfeita de Deus, mas é a imagem original de Deus. Assim, ser salvo significa viver em lealdade a Jesus de forma que nele é possível se tornar completamente humano, representando a Deus integralmente na criação, como um ídolo.

Ainda que esses dois capítulos sejam muito importantes, especialmente o capítulo 7, devo dizer que fiquei desapontado. Bates não aproveita grandes oportunidades de torná-los, de fato, parte integrante de seu principal argumento sobre Jesus como rei e a salvação como resultado da lealdade. Em ambos os capítulos, a associação com o principal argumento do livro somente aparece no fim dos capítulos de uma maneira forçada. Minha sugestão seria que eles formassem somente um capítulo sobre o reinado de Deus sobre a criação, como isso define a identidade da humanidade como imagem de Deus, e finalmente como isso se aplica a Jesus e seu povo. Se Bates começasse com o reinado de Deus sobre a criação em Gênesis 1, ele poderia associar a ordem da criação, e sua fertilidade que torna a vida possível, ao modelo de governo de Deus, que então é esperado que seja replicado pela humanidade como co-regentes. Tendo essa fundação, ele poderia, então, desenvolver sua aprimorada perspectiva de que Jesus é a imagem original como uma ponte para o plano de Deus de continuar governando a criação. Esse governo tem o propósito de fazer a criação alcançar seu pleno potencial de ser essa ordem que promove a vida por meio do reinado de Jesus, a imagem original de Deus, e por meio do governo daqueles que entraram nessa nova versão de si mesmos como ídolos de Deus ao serem leais a Jesus. O modo como Bates organizou esses dois capítulos, além de torná-los um tanto independentes de seu principal argumento, também colocou a humanidade mais ao o centro do que deveria, ainda que seja para fazer algo para além de si mesmos, para o bem de toda a criação. A abordagem e a estrutura que eu sugeri fariam muito mais sentido com o argumento total do livro e removeria até a menor possibilidade de a salvação ser algo centrado no indivíduo.

O último argumento, de fato, do livro vem no capítulo 8 (Justificação e Lealdade Somente). Essa é uma posição estranha para o capítulo, depois de dois capítulos falando sobre a conclusão da salvação. Em minha opinião, então, esse capítulo deveria vir depois do capítulo 4 que, junto com o atual capítulo 5 sobre “fé” e “obras”, formariam o miolo do argumento, seguido do capítulo sobre a salvação que sugeri, e o capítulo final de aplicação. Sobre o conteúdo do capítulo, basicamente, Bates refuta a típica abordagem evangélica sistemática sobre a justificação como um passo do que é tradicionalmente conhecido como ordem da salvação, que lida exclusivamente com indivíduos. Primeiro de tudo, Bates mostra que a justificação é mais coletiva no sentido de estar atrelada à união da igreja a Jesus o rei, o que se reflete na típica linguagem Paulina de estar “em Cristo”. Segundo, justificação para Paulo é passada, presente e futura (cf. Rm 2.13; 3.24; 5.1; 1Cor 6.11; Gal 2.16), caracterizando-a como uma metáfora ampla que explica a união com Cristo e está associada com outros termos como regeneração, santificação e glorificação. Como justificação e “justiça de Deus” estão intrinsecamente relacionadas, Bates conclui o capítulo lidando com a questão. Ele estrutura a discussão com a definição Protestante sobre justiça imputada e a definição Católica (depois de Trento) de justiça infundida. A primeira é uma transição individual que acontece de uma vez por todas e não combina com a caracterização paulina da justificação como passada, presente e futura. Já a segunda é uma dádiva conquistada pelo mérito de Jesus, mas a dissocia demais da participação da justiça do Messias, dependendo demais da justiça do crente. Portanto, Bates propõe que o crente, ao estar incorporado no Messias pela lealdade, recebe e encarna a justiça do Messias. Assim ele elimina o aspecto individualista e pontual da versão Protestante e o aspecto individualista e dissociado da versão Católica.

O último capítulo do livro (Praticando Lealdade) é a tentativa de Bates de oferecer algumas aplicações práticas. A primeira é que o evangelismo deve abandonar os convites para as pessoas aceitarem a Jesus em seus corações ou limitar o evangelho ao perdão de pecados. Ele também sugere que o evangelho não pode ser definido por uma vida cruciforme ou por programas sociais. Ainda assim, infelizmente, Bates, na minha opinião, sucumbe à dicotomia missional entre proclamação oral versus atos de justiça e misericórdia. Minha suspeita é que isso remonta aos seus 8 pontos que definem o evangelho no capítulo 3. Bates explica que “concordância intelectual a certos fatos sobre a história de Jesus é uma condição necessária, mas não suficiente, para a salvação” (p. 93), no capítulo 4. E eu até concordo com isso, assim como concordo que ações alinhadas com o evangelho ganham um caráter muito mais convidativo ao vinculá-las com informações conceituais sobre o evangelho. Mas eu não posso concordar, por exemplo, com a implicação feita por Bates de que deveríamos usar algo como o Credo Apostólico como um juramento de lealdade, simplesmente porque isso é mera crença e não lealdade encarnada, como Bates argumentou convincentemente por todo o livro. Isso é incoerente, já que ele mesmo concorda, ao citar Michael Gorman, que ser leal a Jesus significa “se tornar o evangelho” (p. 209). Eu diria, também, que a visão de Bates sobre o que é salvação e o que é ser salvo nos capítulos 6 e 7 erradica qualquer tentativa de manter a dicotomia entre discurso e ação no avanço do evangelho e no aspecto convidativo para que outros se juntem nessa lealdade. Em nossa lealdade a Jesus o rei, estamos sendo transformados nesses ídolos em conformidade com o ídolo original, Jesus, que mediam sua presença a outros e avançam a ordem que permite à criação alcançar seu potencial máximo de uma ordem que gera e promove a vida, o que envolve todo tipo de ação social econômica e ecológica de justiça e misericórdia. Para mim, esse testemunho é suficiente para convidar outras pessoas à mesma lealdade com ou sem explicações discursivas.